Na chamada “Manhã de Formação”, o Colégio Marista nos proporcionou uma experiência inconvencional, mas importante para o nosso amadurecimento pessoal. Fomos levados a uma clínica de reabilitação para dependentes químicos e, em seguida, nos digirimos a Chácara Manacá visando um momento mais descontraído. Na clínica, que é modelo e possui influências em padrões cubanos, assistimos a uma palestra comandada por um paciente com grande repertório de vivências com drogas lícitas e ilícitas.
            O que parecia ser um momento tedioso e com um ar de “mais do mesmo”, logo tornou-se interessante, informativo e reflexivo. Ao ouvir todas as hitórias do palestrante, começamos uma comunicação intrapessoal a respeito  dos acontecimentos apresentados. Vamos aos fatos. Um garoto que cresceu em uma boca de fumo; ganhou a sua primeira bicicleta de um traficante; viu uma mulher esquartejada quando ainda criança; tornou-se comandante do tráfico de drogas; tentou, em vão, suicídio diversas vezes; separou-se; e se vê distante de seus filhos. Ao concluir sua série de flashbacks, um momento de emoção e lágrimas veio a tona - “Vim pra cá porque cheguei ao fundo do poço” - disse.
            Escutando atentamente ao discurso, percebemos o quão difícil é a vida dos menos favorecidos socialmente. Vê-se como é um tema complexo e o que deve ser feito para, ao menos, reduzir o problema do tráfico e consumo de drogas. Não podemos afirmar categoricamente que a culpa é da comunidade com as suas influências, mas é perceptível a dificuldade de desenvolver-se e tomar as decisões corretas em um ambiente como esse. Entretanto, apesar de já ter traficado, o palestrante nunca teve passagens na polícia, assim como nunca assassionou ninguém. Dois pontos importantes a uma reflexão social.
            A próxima etapa dependia da participação dos próprios alunos, que deveriam interagir com o paciente. Confesso que surpreendi-me com a minha reação e a de meus amigos. É indiscutível que todos os estudantes do colégio tem consciência de que há usuários de drogas ao seu redor. O que não é da compreensão de todos é que tal atitude provém, muitas vezes, de um erro cometido no passado, em um momento de instabilidade emocional, que trás consequêcias para o presente. As expressões inesperadas devem-se a não um, mas vários fatos: a declaração de muitos afirmando que são/foram usuários em frente aos professores; os motivos que os levaram a cessão do consumo; como o fizeram; e as lágrimas de emoção ao lembrar das experiências.
            Confesso que cheguei a ficar com os olhos cheios d’água ao ver uma colega de classe em prantos devido ao consumo de drogas. Estamos todos, mesmo que não pareça, suscetíveis as drogas, sejam lícitas ou ilícitas, e, um dia, teremos que fazer a escolha certa. Em seguida, o palestrante empolgou-se ao apresentar-nos suas obras artísticas, com destaque ao lustre feito somente com palitos de picolé. Sim, a princípio seria somente mais uma palestra, mas o fato é que a experiência provou o contrário. Não posso afirmar que a visita a clínica levou a uma reflexão posterior em todos os indivíduos presentes, mas, ao menos, podemos ver o outro lado da moeda: o “daquele marginal que não quer nada com a vida”, como muitos dizem preconceituosamente.

Por: Gustavo Carvalho

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