Pense em Brasília e suas belas curvas e obras arquitetônicas. Provavelmente, algumas das imagens que vieram em sua mente compõe o legado do pintor, escultor e arquiteto, Athos Bulcão. Quando se fala desse gênio, logo pensamos em seus painéis de azulelos, porém seus rastros vão muito adiante. Fotomontagens, pinturas, relevos, desenhos e até máscaras fazem parte dessa longa trilha desenvolvida durante os seus 90 anos de caminhada. Convidado pelo ícone da arquitetura canarinha, Oscar Niemeyer, Athos produziu um belo trabalho artístico integrado com maestria a arquitetura da cidade. Podemos destacar algumas de suas obras como seu painel de azulejos, da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima; “O Sol Faz a Festa”, que cobre a parede externa do Teatro Nacional Claudio Santoro; e “A Invasão dos Marcianos”, uma  fotomontagem produzida em 1952.


Athos Bulcão



Painel de azulejos, Entrequadras 307/308 Sul, Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, 1957.
São utilizadas cores frias e neutras.
Modulação e grafismo.
A composição é chapada.
Bela integração com a forma arquitetônica.
Linhas curvas e retilíneas.
Embasado em formas geométricas.


Ao apreciar uma obra como essa, imediatamente nos perguntamos: “Mas, isso é arte?”. Questionamento que deve-se, principalmente, a simplicidade e integração com a estrutura arquitetônica, levantando uma dúvida inicial. Analisando-a melhor, vem a mente novas perguntas: mas...  “O que o artista pretendia mostrar com essa obra?”,  e...  “A arte pode ser apresentada em nosso cotidiano, como acontece com a obra, e ainda assim ser reconhecida como arte, ou manter-se bem recebida pela crítica?”. Esses são alguns questionamentos que nos levam a uma reflexão a respeito das nossas ideias no que se refere a arte e a nossas concepções, muitas vezes preconceituosas. Será que a obra “Mona Lisa” teria tamanha admiração se estivesse exposta para a apreciação no dia-a-dia, ou em um ambiente mais simples?

A obra em destaque faz parte de um amplo projeto com Niemeyer, para a construção de Brasília. A igrejjinha foi o primeiro templo de alvenaria a ser construído na capital nacional. A construção foi projetada por Oscar N. com um painel de azulejos de Athos que encobre toda a superfície lateral.  Ao caminhar por Brasília, pode-se apreciar o legado desse projeto por todos os cantos. Na Torre de TV, no Parque da Cidade Sarah Kubitschek, na Universidade de Brasília, no Palácio do Itamaraty, no Palácio da Alvorada,  e no Teatro Nacional Cláudio Santoro, por exemplo, podemos encontrar trabalhos de Athos Bulcão. Vale destacar a última obra citada. O que seria a superfície do teatro sem o relevo de Bulcão? Lembro-me de quando os blocos de concreto que preenchem as laterais do edifício foram removidos para manutenção. Não era o mesmo, o brilho havia se perdido.

É perceptível o quão importante foi esse artista para o cenário candango.  Seu extenso trabalho é datado da idade moderna. Já seus característicos azulejos destacam-se pela modulação, grafismo, integração com a arquitetura, geometrização e simplicidade. O grupo ficou, no mínimo, impressionado com a qualidade e quantidade de trabalhos deixados por esse artista. Athos Bulcão ficou marcado por seu legado em território candango. “Quando olho as cores dos meus quadros, vejo o céu e a terra de Brasília e aí percebo que sou, na verdade, um artista do planalto.” 

Por: Gustavo Carvalho

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